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01 de junho de 2015

Nasci num mundo organizado e seguro. Pelo menos era assim que eu o percebia. Um mundo racional governado por uma lógica nem sempre justa ou igualitária, mas, de qualquer forma, aparentemente sensata.
A guerra era uma sombra que ensanguentava as terras mais ou menos distantes que eram vistas com respeito e uma estranha compaixão.
Diante de mim, desdobrava-se um futuro pleno de conquistas meritocráticas contrabalançadas pelo inevitável caminho da vida errada, que era presente, mas não tão contagiosa a ponto de impedir a sobrevivência da honestidade. Passei a minha adolescência alimentando-me de livros e de senso crítico; rituais comemorativos estes cujo valor simbólico era incontestável. Mesmo ciente do constante risco degenerativo do qual ninguém escapa, eu me sentia à salvo de certos horrores.
O horror nos campos de concentração e o heroísmo dos Partisans (partisanos, non so a cosa si riferisca di preciso quindi se in maiuscolo per qualsiasi ragione. Partisanos existe in portoghese, dimmi tu teso) eram certamente muito recentes e suas histórias, além de servirem de alerta, inspiravam uma virtuosidade emotiva. O que eu teria feito? Seria corajosa o suficiente para não me submeter à barbárie? Teria renunciado à minha vida para salvar outras? Por dentro, porém, tinha esperança de que certas coisas não acontecessem de novo.

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*Photo Copyright: Michelangelo Mignosa

O meio ambiente era um conceito vago e multifacetado para mim. A natureza, um tesouro de onde tirar vantagem, tanto emotiva quanto econômica. O progresso – seja lá o que significasse e além das previsões possíveis – ainda conservava uma finalidade humana. Os curtos-circuitos e as contradições que surgiam eram episódios isolados aos quais não se dava muita importância. As perseguições eram estudadas nos livros didáticos com muita indignação e com uma certa distância causada pela sensação disseminada de segurança que eu tinha.
Em seguida, o lindo palco da evolução humana começou a desmoronar. E retornam os campos de concentração sob a forma de Centros de Identificação e Expulsão (C.I.E.), de Centros de Acolhimento de Requerentes de Asilo (C.A.R.A.) e de confinamento. Retornam os lugares despersonalizantes onde a quantidade apaga qualquer unicidade desses seres sensíveis. A massa de pessoas que se misturam e se perdem. A mesma massa que elimina quaisquer peculiaridades e cria ectoplasmas horripilantes de contornos incertos nos quais os nossos medos coagulam. E retornam os pesadelos que esperávamos que não os reveríamos nunca mais.
Neste vasto cenário de barbárie moral, de embrutecimento do pensamento às suas dinâmicas mais primordiais e de alienação das nossas ações fragmentadas e vazias de lógica, acredito que precisemos de portos seguros onde possamos reabastecer a nossa humanidade e empatia. Beleza, paixão e sentimento de admiração são os lugares perfeitos para nos abrigarmos do ritmo cada vez mais violento das nossas vidas.
O significado e as intenções sob as quais este blog nasce são simples: compromisso com a reflexão, até de temas desconfortáveis e cujas soluções não são simples, renunciando aos atalhos com toda honestidade intelectual e fugindo da distância infinita do macro para focar nos espaços mais dignos do micro, os quais restituem unicidade e paixão pessoal por certos temas que finalmente podem ser abordados.
E assim Moussa não é o enésimo migrante/imigrante/clandestino, mas é como um irmão/filho/amigo que não tive depois de 29 anos de viagem nesta Terra. Moussa, assim como eu, deixou o seu mundo conhecido em busca de um futuro melhor. Moussa pagou um preço muito alto pela sua coragem e, toda noite, dorme sem saber se um dia verá a sua mãe. Moussa não é um imigrante. Moussa é uma pessoa.

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*Photo Copyright: Michelangelo Mignosa

A referência à Antígona (Antigone em italiano) nasce da necessidade de proteger e preservar as leis naturais que pertencem, de modo inalienável, a cada ser vivo e que nunca deveriam ser violadas pela arrogância humana. Antígona representa uma heroína inconformada e honrada que nos convida para uma viagem nas curvas da consciência. Uma viagem difícil, de afronta ao pensamento dominante feito ad hoc pela instável insolência humana. Antígona sabe que um defunto merece um enterro e sabe ainda que as leis humanas não podem impedir que as leis naturais prevaleçam. Devemos reconhecer quando a lei humana ameaça a sacralidade inviolável da vida. Antígona estava sozinha, enquanto nós somos muitos e podemos guiar uns aos outros para novas reflexões com aquele entusiasmo que caracteriza as grandes paixões.
Por fim, espero que este espaço virtual seja o seu/nosso lar, o seu/nosso refúgio antibarbárie, o seu/nosso recanto de humanidade reencontrada e renovada. Eu agradeço a todas as pessoas com quem falei sobre este projeto, as quais pareciam estar à espera de uma oportunidade para abordar certos temas. Agradeço a cada um/a de vocês pela disposição e entusiasmo. Agora temos um lar, uma casa onde podemos nos encontrar.
Ad maiora. 2015

Maria Grazia Patania

Tradução: Emerson Marinho
Revisão: Massimo Micheli


E assim foi um ano atrás. E assim ainda é hoje. E assim será também amanhã, esperemos. As metáforas que acompanharam a evolução do Antigone são duas: uma menina e uma casa. Inicialmente concebido como um lugar virtual de encontro, o Collettivo mudou de rosto e tornou-se, também ele, uma metáfora de uma criatura, uma criança concebida sob o meu sofá vermelho. Uma criança sem pai, rodeada de tios e tias, de primos e primas que a acompanham no seu crescimento. Para nós do Coletivo, Antigone é uma menininha e, assim como numa família, a comitiva serve para sustentar a mãe. E aqui estamos nós resumindo um ano bem árduo, mas profundamente gratificante pelas satisfações que tivemos: Antigone saiu do anonimato, viajou, está dando seus primeiros passos sozinha e aprendendo a falar – em várias línguas até. Antigone ganha voz e enriquece o coral que a compõe: dois refugiados africanos – Doumbia e Yacob – fazem parte do grupo, um terceiro – Rami – que vem da Síria nos contará a sua viagem em alguns dias. Além disso, alguns/algumas estudantes de tradução e interpretação quiseram colocar seus talentos à disposição traduzindo alguns dos nossos artigos. Antigone cresce e com ela o nosso compromisso de melhorar a qualidade do trabalho que levamos para frente.
Agradeço de coração a todos que compartilharam este sonho conosco, a quem acreditou no nosso projeto e também a quem não o fez, pois incitou-nos a questionarmo-nos se o que fazíamos era suficiente. Agradeço a todos que nos leram, compartilharam e escreveram, a todos que ouviram as nossas ideias, aos fotógrafos que nos acompanharam na difícil tarefa de transformar palavras em imagens. Agradeço a Emiliano que nos deu o logotipo e compartilhou conosco uma parte da viagem.

Um agradecimento especial eu dedico a Yacob, Doumbia e Rami que aceitaram abrir seus corações presenteando-nos principalmente com a confiança. E também a Michelangelo Mignosa que desde o primeiro email apoiou o nosso projeto com uma entrevista e uma pontualidade perfeita para este aniversário. E é justamente a sua entrevista que eu lhes convido a reler aqui ou clicando no seu nome. Já aqui vocês encontram as suas contribuições para o Collettivo Antigone.

Ad maiora. 2016.

Maria Grazia Patania

Tradução: Emerson Marinho
Revisão: Massimo Micheli

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*Photo Copyright: Michelangelo Mignosa

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